Caríssimos,

Segue um breve resumo da comédia As Nuvens, de Aristófanes.

Obra que reune as principais comédias de Aristófanes.

O grande comediógrafo grego insurgiu-se contra as propostas pedagógicas e éticas dos sofistas, pretendendo demonstrar as funestas consequências da educação nova.

Conta As Nuvens que o velho Estrepsíades, outrora abastado proprietário rural e agora homem arruinado e cheio de dívidas, em consequência do seu casamento com uma aristocrata ateniense, procura achar solução para os seus males. Decide ir frequentar a escola de Sócrates, na esperança de aprender as artimanhas dos sofistas e com elas conseguir desenvencilhar-se dos credores.

A falta de capacidade intelectual obriga-o, pórem, a desistir. Por isso tenta e consegue convencer seu filho Fidípides a entrar nessa escola. Mas o filho aprendeu tão bem as sutilezas da argumentação que, sofista consumado, acaba por bater no pai, propondo-se ainda demonstrar que isso era perfeitamente legítimo. No cúmulo do desespero, Estrepsíades lança fogo à escola.

Sabe-se que nas As Nuvens, Aristófanes ridicularizou Sócrates e fez dele uma caricatura. Sócrates é aí dado como um sofista ateu e blasfemador que abusa da credulidade dos seus alunos fazendo-os dissertar sobre assuntos mais fúteis. Nesta comédia, durante a acusação de Sócrates, Aristófenes apresenta-o como uma personagem que anda pelo ar.

Transcrição de um diálogo, entre discípulos de Sócrates e Estrepsíades, em que o pensamento sócratico é ridicularizado:

Desenho que mostra Sócrates conversando com as nuvens, célebre passagem da comédia de Aristófanes.

Disc.- Sendo assim, está bem...Mas toma sentido que é segredo. Foi o caso que ainda agora perguntava Sócrates a Querefonte quantas vezes é que uma pulga era capaz de saltar o comprimento das suas próprias patas. É que um destes bichos, depois de afifar uma ferroada nas sobrancelhas de Querefonte, foi aterrar na cabeça de Sócrates.

Estr.- E como diacho mediu ele isso?

Disc.- Cá com uma pinta...(Falando e imitando). Primeiro, derreteu um pouco de cera; em seguida, pegou na pulga ...e mergulhou duas patas na cera; depois, deixou arrefecer e enfiou-lhe um par de pantufas pérsias; finalmente, descalçou as pantufas e com elas, pacientemente, pantufa a pantufa, foi medindo a distância.

Estr.- Ó grande Zeus, que finura de inteligência!

Disc.- Ainda isso não é nada: que dirias tu se soubesses duma outra descoberta de Sócrates?

Estr.- Que outra descoberta? Conta-me lá, por favor.

Disc.- Ora bem: perguntava-lhe certa vez Querefonte de Esfeto qual era a sua opinião sobre o seguinte: se os mosquitos zumbiam pela tromba ou pelo traseiro.

Estr.- E que é que ele respondeu?

Disc.- Afirmava Sócrates que o intestino do mosquito é estreito. Então, por via da estreiteza, a correnta de ar passa forçada, direito ao traseiro. Depois, é claro, e também por via da estreiteza, gera-se o vazio, e lá vai o ânus, pum: ribomba derivado à violência do sopro.

Estr.- Quer então dizer que o traseiro dos mosquitos é uma trombeta...Oh! Bendito seja um tal in...testigador!...Com certeza que, se alguém lhe movesse um processo, safavase com uma perna as costas, um homem assim, que conhece a fundo o intestino do mosquito...

Disc.- Ainda há coisa de pouco tempo, um lagarto pintado lhe arrebatou um pensamento de arromba.

Estr.- Como foi isso? Conta lá...

Disc.- Uma noite, estando ele a estudar a órbita da lua e as suas revoluções, assim, com o nariz espetado no ar e de boca aberta, eis que de repente um lagarto pintado cagou lá de cima do telhado.

Estr.- Que gozo, um lagarto pintado cagar em cima de Sócrates!