A VIDA E A OBRA DE EMILIANO DI CAVALCANTI

Cartaz da Semana de Arte Moderna de 1922 idealizado por Di Cavalcanti.

As vésperas do carnaval de 1898, um gigantesco incêndio destruiu o Teatro São José, nosso maior e mais preparado palco teatral da época, por onde passaram inúmeras companhias nacionais e estrangeiras, sobretudo as italianas.

Para substituí-lo, imediatamente foi erguido, próximo ao Viaduto do Chá, um novo São José, com capacidade para abrigar até 3000 pessoas. Alguns relatos dão conta de que sua acústica não teria ficado satisfatória e, com isso, as grandes companhias se recusavam a se apresentar lá. Resultado: no final da década de 20, o prédio foi demolido e no seu lugar foi construída a sede da empresa de energia Light. No local, desde 1999, funciona o Shopping Light.

Desde 1903, quando sua pedra fundamental fora lançada, o arquiteto Ramos de Azevedo, juntamente com os irmãos Cláudio e Domiziano Rossi, foram responsáveis por uma guinada histórica nas artes brasileiras quando projetaram o que viria a ser o Theatro Municipal de São Paulo. Em 12 de setembro de 1911, diante de uma multidão de mais de vinte mil pessoas, deu-se a sua inauguração.

Nomes como Maria Callas, Enrico Caruso, Arturo Toscanini, Claudio Arau, Arthur Rubinstein, Ana Pawlova, Nijinsky, Isadora Duncan, Nureyev, Margot Fonteyn, Baryshnikov, Duke Ellington, Ella Fitzgerald se apresentaram no seu palco. São Paulo e o Brasil entravam, definitivamente, na rota dos grandes espetáculos. A elite paulistana, identificada com as alas mais conservadoras da estética europeia e enriquecida graças a pujança do café brasileiro, não mais precisava ir à Europa para ter acesso aos grandes artistas.

Mas como o fluxo da história não é contínuo e as contradições também fazem parte da vida humana, em 1922, o Theatro Municipal de São Paulo abrigou, entre 11 e 18 de fevereiro de 1922, um dos mais fortes brados da arte brasileira: a Semana de Arte Moderna.

Com o intuito de nos apresentar o que de mais moderno em termos artístico ocorria na Europa, Oswald de Andrade, Manoel Bandeira, Anita Malfatti, dentre outros engendraram um movimento cujo objetivo mor era justamente romper com o tradicionalismo da arte que se fazia no velho mundo. Ironicamente, o Theatro Municipal, que nasceu sob a égide do tradicionalismo, tornou-se a principal vitrine da inovação.

As mulatas foram amplamente retratadas pelo artista, que as via como as  nossas legítimas  representeantes.

Não por acaso, nomes ligados aos antigos costumes não pouparam ácidas críticas aos modernistas. É emblemático o caso de Monteiro Lobato e suas considerações pouco amigáveis à exposição de Anita Malfatti, que influenciada pelo cubismo e pelo futurismo, escandalizou os mais conservadores.

O pintor berlinense George Elpons (1865-1939) não participou da Semana de Arte Moderna de 1922, mas seu papel é determinante para o andamento das coisas. Ele vem para Brasil na década de 10, perambula por um tempo na Amazônia e, depois, fixa residência em São Paulo, em 1913. Em 1914, funda um dos primeiros cursos de pintura na capital paulista e passa a dar aulas para importantes nomes da pintura brasileira: Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e... Emiliano Di Cavalcanti, que, desde 1917, havia se transferido para São Paulo para cursar a Faculdade de Direito do Largo do São Francisco.

É no ateliê do impressionista George Elpons que Di Cavalcanti se torna amigo de Mario e Oswald de Andrade. As peças promocionais da Semana de 1922 - catálogo e programa - foram criadas por Di Cavalcanti, e sua obra, já bastante difundida naquele tempo, serviu de inspiração para aquele momento específico e para toda a história das artes plásticas no Brasil.

Emiliano Di Cavalcanti nasceu no Rio de Janeiro, em 1897, e inicia sua vida de artista por ocasião da morte do pai, em 1914, quando se torna necessário garantir seu próprio sustento. Seus primeiros desenhos são publicados na extinta Revista Fon-Fon, especializada em retratar os hábitos e costumes da sociedade carioca e que foi publicada de 1907 até 1958.

Em 1923, faz sua primeira viagem à Europa, expondo em Londres, Berlim, Bruxelas, Amsterdã, dentre outras. Devido ao relativo sucesso dessas exposições, Di Cavalcanti conhece Pablo Picasso, Henri Matisse, Fernand Léger e Jean Cocteau, artistas que pensavam as principais mudanças estéticas desse início de século XX. Em 1926, retorna ao País e cria os painéis de decoração do Teatro João Caetano no Rio de Janeiro.

As Cinco Moças de Guaratinguetá, uma de suas telas mais famosas.

Por seus vínculos com o Partido Comunista Brasileiro, ao qual se filia em 1926, os anos 30 serão os anos das prisões para Emiliano Di Cavalcanti, o que marca a concepção estética do artista. Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, vai preso pela primeira vez. Em 1936, foge para a ilha de Paquetá (RJ) para não ser preso, mas no seu retorno, os militares o levam para a o cárcere. Com a ajuda de amigos, conseguiu a liberdade e, imediatamente, embarcou para Paris, lá se estabelecendo até 1940. Na capital da França, recebe, em 1937, recebe a medalha de ouro pelos trabalhos desenvolvidos no Pavilhão da Companhia franco-brasileira, na Exposição de Arte Técnica de Paris.

A Segunda Guerra Mundial faz com que Di Cavalcanti retorne ao Brasil, mais especificamente a São Paulo, de onde inicia uma série de artigos em que deixará claro suas discordâncias com o abstracionismo. Ele acusa essa corrente estética de tentar alcançar a realidade sem, contudo, entender a própria realidade. Em 1941, ilustra o livro Uma Noite na Taverna, de Álvares de Azevedo. Em 1947, seu casamento com Noêmia Mourão chega ao fim. Arlequins (1943), Gafieira (1944), Colonos (1945) e Abigail (1947) são seus trabalhos mais representativos desse momento. Neles é possível perceber a intensa brasilidade com que impregnava seus quadros, onde as cores fortes avivam a experiência da contemplação estética, que sempre foi uma grande preocupação do artista.

Nesta obra - Os pesacadores - podemos observar nitidamente a ênfase que o artista dava às cores.

A década de 50 é particularmente marcada pelo o envolvimento de Di Cavalcanti em bienais de arte. Em 1951, participa da 1º Bienal de Arte de São Paulo onde obtém relativo sucesso. Por razões pessoais, se recusa a participar da edição de 1952 da Bienal de Veneza. Na segunda edição da Bienal de São Paulo, em 1953, divide com Alfredo Volpi, o prêmio de melhor pintor nacional. Em 1958, a convite de Oscar Niemayer idealiza uma série de desenhos para compor a tapeçaria do Palácio da Alvorada. Ainda na capital do País, é possível contemplar obras de Di Cavalcanti na Catedral Municipal de Brasília.

Navio Negreiro, obra de Emiliano Di Cavalcanti (Museu de Belas Artes, RJ).

O ano de 1960 é especial para o artista, que recebe a medalha de ouro da II Bienal Interamericana do México, prêmio que traz grande notoriedade para Di Cavalcanti no exterior. A 7ª Bienal de São Paulo, de 1963 lhe dedica uma das maiores retrospectivas de um artista brasileiro. Sua importância para a construção de uma identidade nacional é cada vez mais crescente. Recebe a indicação do Presidente João Goulart para ser adido cultural na França, mas o golpe civil-militar de 1964 impede a nomeação. Ainda em 1964, lança seu segundo livro Reminiscências Líricas de um Perfeito Carioca, no qual faz uma espécie de ode à sua terra natal.

Scene Bresilienses, obra de Di Cavalcanti em exposição  no Museu de Arte Moderna de Paris.

Em 1971, o MAM - Museu de Arte Moderna - de São Paulo organiza uma segunda grande retrospectiva de sua obra, referendando Di Cavalcanti ?como o mais brasileiro dos pintores?, nas palavras de Mário de Andrade. Recebe, também neste momento, um prêmio da Associação Brasileira dos Críticos de Arte. Em comemoração aos seus 75 anos, sua tela Cinco Moças de Guaratinguetá é reproduzida em selo. Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo falece, no Rio de Janeiro, em 26 de outubro de 1976, aos 78 anos de idade, deixando uma das mais importantes obras das artes plásticas do Brasil.